19 de ago. de 2014

O Imortal...



  Zenon caminhava solitário em uma planície rochosa e desértica, o que era comum. Á centenas de anos que as paisagens de todo o planeta se resumiam basicamente em planícies como essa. Ele ficava relembrando como eram as cidades que ali existiam, como tudo foi acontecendo, da forma que a civilização foi se perdendo. Seu rosto era triste e cansado, vestia trapos rasgados, sujos de terra, não se importava com isso, não havia ninguém ali mesmo para vê-lo, para conversar, lhe fazer companhia. Sentado no vazio, uma lagrima corre em seu rosto, logo o vento e a poeira a secam, antes que pudesse tocar o chão. Ali continuava a lembrar, quantos amores e perdas, quantas guerras e tratados de paz, tudo o que passara, não significava mais nada, eram apenas memórias de um nômade solitário.
  Ele nunca quis ser imortal, apenas nasceu assim, em 1888. No principio, todos acharam um milagre, uma benção divina, o próximo passo na evolução humana, e ele também chegou a pensar algum tempo assim, mas após perceber que continuaria vivo, enquanto todos que amava, conhecia ou que iria conhecer, envelheceriam e morreriam, e ele continuaria ali, sua tristeza começou a crescer. Tentou se matar inúmeras vezes, se jogou de prédios, consumiu venenos, se atirou em alto-mar, na frente de veículos em movimento, foi fuzilado, cortado, mutilado, espancado, e nada, nenhuma dessas coisas o mataram, no maximo o desacordavam por alguns minutos, mas logo suas feridas estava fechadas e ele disposto a repetir tudo. Milhares de pesquisas e estudos foram feitos com seu corpo, mas estranhamente nada foi decifrado, os cientistas só conseguiam enxergar exatamente o que um ser humano normal possui, o mesmo numero de ossos, células e tecidos. Sua melancolia apenas aumentava ao saber disso, pensava que pelo menos sua vida infinita tinha que ter algum propósito, não apenas sofrer pela eternidade. Parecia que algum deus sádico havia dado aquele “dom” a ele, só para ter algo o que olhar e torturar por toda eternidade. Algumas vezes tinha ataques de fúria, pela frustração de tantas perdas em sua vida, mas nunca chegava a machucar ninguém, não era sua índole fazer tal coisa.
  Decidiu então que deveria se exilar de tudo e todos, viver sozinho, apenas observando o rumo das coisas das sombras. E assim fez, eras após eras, sendo apenas uma testemunha dos acontecimentos terrestres. Revoluções, criações, destruições, tudo fazia questão de observar e guardar bem em sua cabeça, a única coisa que ele conhecia que não se deteriorava com o tempo. Triste viu o declínio da civilização, impotente e fraco, não podia ajudar, apenas olhar e esperar terminar. Observou o planeta tornando-se quase estéril e vazio, como um grande deserto, novamente não podia fazer nada, apenas vagar sem rumo, aguardando algum possível fim para aquilo tudo.
  Milênios depois, viu o sol tornar-se vermelho, entrar em colapso e explodir, levantou-se, olhou fixamente para ele, esboçou um pequeno sorriso e novamente uma lagrima descia em seu rosto, após muito tempo não se sentia tão feliz.

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